O poder da voz: para uma etnografia de reparação do passado colonial guineense
DOI:
https://doi.org/10.48487/pdh.2025.n21.39912Palavras-chave:
reparação, património cultural, sociedade civil, Guiné-Bissau, restituição, colonialismo, poscolonialismoResumo
A devolução do património cultural aos países de origem é um tema debatido globalmente, incluindo na relação entre Portugal e as suas ex-colónias. Este artigo apresenta resultados de um trabalho de campo etnomuseológico na Guiné-Bissau, realizado ao longo de quatro anos, para entender a relação do povo guineense com o seu património cultural. A pesquisa, centrada nas vozes dos guineenses, propõe a reparação como gesto político, baseada em apoio financeiro, infraestruturas e capacitação de recursos humanos. Num primeiro momento, analisa-se a história das coleções museológicas recolhidas por portugueses na Guiné-Bissau durante o período colonial. A investigação recorre à etnografia para valorizar as vozes locais, desafiando a narrativa ocidental dominante sobre património colonial. Pergunta-se: qual o significado destes objetos hoje? Qual o seu papel, valor e destino? Apesar da importância da restituição material, a sociedade guineense não a considera como uma prioridade imediata. Muitos defendem que é necessário criar condições, como museus e formação especializada, antes do retorno dos bens. Outros reconhecem o papel desses objetos em museus europeus na representação da diáspora e da identidade nacional. O artigo não apresenta soluções, mas sim perspetivas de leitura e análise sobre a forma como o passado colonial é vivido quotidianamente neste país.
